O lema de Itô, e por que a regra da cadeia quebra

Todo curso apresenta o lema de Itô como uma regra da cadeia com um termo extra estranho. Este texto mostra de onde vem esse termo, por que ele não é opcional, e o que ele faz com o seu dinheiro.

Leitura de cerca de 15 minutos · exige regra da cadeia e série de Taylor

Se você já viu o lema de Itô, também chamado de fórmula de Itô, provavelmente viu assim. A regra da cadeia normal diz que \( df = f'(x)\,dx \). Para um processo estocástico, aparece um termo a mais, com uma segunda derivada e um fator de um meio, e o professor diz que isso vem da variação quadrática do movimento browniano. Você anota e segue.

Só que esse termo extra carrega quase tudo. Sem ele não existe Black-Scholes, não existe hedge dinâmico como o conhecemos, e o retorno típico de um investimento seria outro número. Vale entender de onde ele sai.

O caminho

  1. Por que a regra da cadeia normal falha
  2. O fato central, a variação quadrática
  3. A dedução por Taylor, a demonstração heurística
  4. Primeiro teste, a função ao quadrado
  5. O caso que importa, o log do preço
  6. O arrasto de volatilidade, com números

1. Por que a regra da cadeia normal falha

Na regra da cadeia usual, você despreza tudo que for de ordem superior. Se \( x \) varia por \( \Delta x \), então

$$ \Delta f \approx f'(x)\,\Delta x + \tfrac{1}{2}f''(x)\,(\Delta x)^{2} + \ldots $$

e o segundo termo some no limite, porque \( (\Delta x)^{2} \) é muito menor que \( \Delta x \). Se \( \Delta x \) vale um centésimo, o quadrado vale um décimo de milésimo. Ignorar é seguro.

Com o movimento browniano essa conta muda, e muda por um motivo geométrico. Um caminho browniano não é suave. Ele oscila em toda escala, e por isso o tamanho típico de um incremento não é proporcional ao intervalo de tempo, é proporcional à raiz dele.

$$ \Delta W \sim \sqrt{\Delta t} $$

É a mesma escala raiz do tempo que faz a volatilidade anual ser a diária multiplicada por \( \sqrt{252} \). E ela estraga o argumento anterior, porque agora

$$ (\Delta W)^{2} \sim \Delta t $$

O termo de segunda ordem tem exatamente o mesmo tamanho do termo de primeira ordem em \( t \). Ele não é desprezível, ele é da mesma ordem do que você está tentando calcular. Jogar fora seria errar o resultado, não arredondá-lo.

2. O fato central, a variação quadrática

Vamos tornar isso preciso. Divida o intervalo \( [0,T] \) em \( n \) pedaços e some os quadrados dos incrementos. A afirmação é que essa soma converge para \( T \), e não para zero.

$$ \sum_{i=1}^{n} (\Delta W_i)^{2} \;\longrightarrow\; T $$

Dá para ver por quê com probabilidade básica. Cada incremento é normal com variância \( \Delta t \), então

$$ \mathbb{E}\big[(\Delta W_i)^{2}\big] = \Delta t \qquad\Longrightarrow\qquad \mathbb{E}\left[\sum_{i=1}^{n} (\Delta W_i)^{2}\right] = n\,\Delta t = T $$

A média já dá \( T \). Falta mostrar que não é só a média, que a soma de fato gruda em \( T \). Para uma normal de média zero vale \( \mathrm{Var}(Z^{2}) = 2\sigma^{4} \), o que sai do momento quarto da normal, \( \mathbb{E}[Z^{4}] = 3\sigma^{4} \), fazendo \( 3\sigma^{4} - \sigma^{4} \). Logo cada parcela tem variância \( 2(\Delta t)^{2} \), e como os incrementos são independentes,

$$ \mathrm{Var}\left[\sum_{i=1}^{n} (\Delta W_i)^{2}\right] = n\cdot 2(\Delta t)^{2} = 2T\,\Delta t \;\xrightarrow[\Delta t \to 0]{}\; 0 $$

Variância indo a zero com média fixa em \( T \) significa que a soma deixa de ser aleatória. Ela vira o número \( T \). Esse é o resultado surpreendente. Cada caminho é um caos diferente, mas todos acumulam exatamente a mesma variação quadrática. O nome formal desse tipo de convergência é convergência em média quadrática.

Conferido numericamente

Simulei um caminho browniano em \( [0,1] \) com refinamentos sucessivos. A soma dos quadrados converge para 1, enquanto a soma dos valores absolutos cresce sem parar, o que mostra que o caminho tem comprimento infinito mas variação quadrática finita.

passossoma de \( (\Delta W)^2 \)soma de \( |\Delta W| \)
1000,7966,9
1 0000,93024,1
10 0000,99979,7
100 0000,997251,8
1 000 0000,999797,6

Repare que a coluna da direita cresce por um fator de aproximadamente \( \sqrt{10} \) a cada linha, que é a assinatura da escala raiz do tempo.

Na notação abreviada que todo mundo usa, esse resultado vira uma regra de multiplicação.

$$ dW \cdot dW = dt, \qquad dt \cdot dW = 0, \qquad dt \cdot dt = 0 $$

As duas últimas são o comportamento normal, coisas de ordem superior somem. A primeira é a anomalia, e é dela que sai tudo.

3. A dedução por Taylor, a demonstração heurística

Considere um processo com arrasto e ruído, o formato geral de quase todo modelo de preço.

$$ dX_t = \mu\,dt + \sigma\,dW_t $$

Queremos saber como se comporta \( f(t, X_t) \). Expanda em Taylor até segunda ordem, mantendo por enquanto todos os termos.

$$ df = f_t\,dt + f_x\,dX + \tfrac{1}{2}f_{xx}\,(dX)^{2} + \tfrac{1}{2}f_{tt}\,(dt)^{2} + f_{tx}\,dt\,dX + \ldots $$

Agora aplique as regras de multiplicação. Comece por \( (dX)^{2} \).

$$ (dX)^{2} = \big(\mu\,dt + \sigma\,dW\big)^{2} = \underbrace{\mu^{2}(dt)^{2}}_{=\,0} + \underbrace{2\mu\sigma\,dt\,dW}_{=\,0} + \sigma^{2}\underbrace{(dW)^{2}}_{=\,dt} = \sigma^{2}dt $$

E os outros produtos? Vale conferir as ordens um a um, já que a seção 1 acabou de ensinar a desconfiar de qualquer coisa descartada como sendo de ordem superior. O termo \( (dt)^{2} \) é de ordem \( dt^{2} \). O produto \( dt\,dW \) tem tamanho típico \( dt\sqrt{dt} \), ou seja, ordem \( dt^{3/2} \). Os dois são menores que \( dt \) e somem no limite, mas por taxas diferentes. O único produto de segunda ordem que sobrevive na ordem \( dt \) é exatamente \( (dW)^{2} \). Sobra

$$ df = f_t\,dt + f_x\big(\mu\,dt + \sigma\,dW\big) + \tfrac{1}{2}f_{xx}\,\sigma^{2}dt $$

e agrupando por \( dt \) e por \( dW \), chegamos ao lema.

$$ \boxed{\;df = \left(f_t + \mu f_x + \tfrac{1}{2}\sigma^{2}f_{xx}\right)dt \;+\; \sigma f_x\,dW\;} $$

O que ler nessa fórmula

Comparada com a regra da cadeia comum, apareceu um único termo novo, o \( \tfrac{1}{2}\sigma^{2}f_{xx} \), e ele entra no arrasto, não no ruído. Ou seja, a curvatura da função altera o retorno médio do processo transformado. Função convexa ganha um empurrão para cima, função côncava apanha. Todo o resto é regra da cadeia de sempre.

Uma licença que vale registrar. Enunciei o lema com \( \mu \) e \( \sigma \) constantes para não carregar a notação, mas ele vale igual quando os dois dependem do tempo e do próprio \( X \). Basta usar, em cada termo, o arrasto e a difusão do processo em questão, que é exatamente o que faremos na seção 5.

4. Primeiro teste, a função ao quadrado

O menor exemplo que já mostra o efeito é \( f(W) = W^{2} \), com \( \mu = 0 \) e \( \sigma = 1 \), ou seja, o próprio browniano. Aqui \( f_x = 2W \) e \( f_{xx} = 2 \).

$$ d(W^{2}) = \tfrac{1}{2}\cdot 1 \cdot 2\,dt + 2W\,dW = dt + 2W\,dW $$

Pela regra da cadeia comum sairia apenas \( 2W\,dW \). O \( dt \) extra tem uma consequência que dá para testar. Integrando dos dois lados de 0 a \( T \), e lembrando que a integral de Itô tem média zero, para integrandos bem comportados como todos os deste texto,

$$ \mathbb{E}\big[W_T^{2}\big] = T $$

que é justamente a variância do browniano, como tinha que ser. Se você tivesse ignorado o termo extra, concluiria que \( \mathbb{E}[W_T^{2}] = 0 \), o que é absurdo, já que um quadrado não pode ter média zero sem ser identicamente nulo.

Onde a integral de Itô difere de todas as outras

Ao calcular \( \int 2W\,dW \) numericamente, o valor de \( W \) precisa ser tomado no início de cada intervalo. Isso não é convenção arbitrária, e o preço de errar é mensurável. Simulei as três escolhas possíveis, com \( T = 1 \).

onde \( W \) é amostradoviés em relação a Itômedido
início do intervalo00,000
meio do intervalo\( +T \)+1,000
fim do intervalo\( +2T \)+2,000

Cada convenção calcula uma coisa diferente. A do meio é a integral de Stratonovich, que devolve exatamente \( W_T^{2} \) e obedece à regra da cadeia comum, mas não é martingale. A do fim erra por \( 2T \), porque \( \sum 2W_{i+1}\Delta W = \sum 2W_i\Delta W + 2\sum(\Delta W)^{2} \), e a segunda soma é a variação quadrática. Só a do início tem média zero, e é ela que dá sentido financeiro à coisa, porque você decide quanto comprar antes de ver o que o preço fez, não depois.

5. O caso que importa, o log do preço

O modelo padrão de preço de ativo é o movimento browniano geométrico, em que o retorno percentual é que tem arrasto e ruído constantes.

$$ dS_t = \mu S_t\,dt + \sigma S_t\,dW_t $$

Aplique o lema a \( f(S) = \ln S \), que tem \( f_t = 0 \), \( f_x = \dfrac{1}{S} \) e \( f_{xx} = -\dfrac{1}{S^{2}} \). Note que aqui o arrasto é \( \mu S \) e a difusão é \( \sigma S \), então

$$ d(\ln S) = \left(0 + \mu S\cdot\frac{1}{S} + \frac{1}{2}\sigma^{2}S^{2}\cdot\left(-\frac{1}{S^{2}}\right)\right)dt + \sigma S\cdot\frac{1}{S}\,dW $$
$$ \boxed{\;d(\ln S) = \left(\mu - \tfrac{1}{2}\sigma^{2}\right)dt + \sigma\,dW\;} $$

Esse é o resultado mais citado de todo o cálculo estocástico, e a origem do famoso \( -\sigma^{2}/2 \). Integrando, o preço fica

$$ S_T = S_0\,\exp\!\left(\left(\mu - \tfrac{1}{2}\sigma^{2}\right)T + \sigma W_T\right) $$

Repare no que aconteceu. O ativo tem retorno esperado \( \mu \), mas o logaritmo dele cresce a uma taxa menor. A diferença é exatamente metade da variância, e ela vem do fato de o logaritmo ser côncavo.

6. O arrasto de volatilidade, com números

Essa correção separa duas quantidades que quase todo mundo confunde, a média e o resultado típico.

$$ \mathbb{E}[S_T] = S_0 e^{\mu T} \qquad\text{mas}\qquad \text{mediana}(S_T) = S_0 e^{(\mu - \sigma^{2}/2)T} $$

A média é puxada por uma cauda de cenários muito bons e raros. A mediana é o que acontece num ano comum. Simulei os dois para três combinações, com horizonte de um ano.

\( \mu \)\( \sigma \)média de \( S_T/S_0 \)mediana de \( S_T/S_0 \)
8%20%1,0831,063
10%30%1,1041,057
15%50%1,1611,025

Olhe a última linha. Um ativo com retorno esperado de 15% ao ano entrega, no cenário mediano, 2,5%. A média de 16,1% existe, mas a maioria dos caminhos fica bem abaixo dela. Metade da variância, aqui, come 12,5 pontos percentuais de retorno típico.

É por isso que volatilidade alta corrói patrimônio mesmo quando a expectativa é positiva. E é a matemática por trás da decepção dos ETFs alavancados em prazos longos. Com alavancagem \( L \) e rebalanceamento diário, a exposição se mantém em \( L \) vezes o ativo, o que faz a volatilidade virar \( L\sigma \) e o crescimento típico virar \( L\mu - \tfrac{1}{2}L^{2}\sigma^{2} \). O ganho escala com \( L \), o arrasto escala com \( L^{2} \).

Com \( \mu = 10\% \) e \( \sigma = 20\% \), alavancar duas vezes dá \( 20\% - 8\% = 12\% \) de crescimento típico. Alavancar quatro vezes dá \( 40\% - 32\% = 8\% \). Mais risco, menos resultado. Existe portanto uma alavancagem que maximiza esse crescimento, e encontrá-la é o critério de Kelly, que aqui dá \( L^{*} = \mu/\sigma^{2} = 2{,}5 \).

Vale a precisão. Esse arrasto proporcional a \( L^{2} \) é filho do rebalanceamento constante, que é o que mantém a exposição fixa em \( L \). Uma posição alavancada estática, comprada com margem e deixada quieta, não sofre o mesmo efeito, porque a alavancagem efetiva dela muda sozinha conforme o preço anda.

O \( -\sigma^{2}/2 \) não é um detalhe de notação, é dinheiro.

Veja a escala raiz do tempo que sustenta tudo isso

Todo o argumento da seção 2 depende de o incremento browniano escalar com a raiz do tempo. Construí um simulador que mostra isso, com trajetórias ao vivo e o envelope de dois desvios padrão. Gratuito e sem cadastro.

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Onde isso vai dar

O lema de Itô é a ferramenta, não o destino. Aplicando ele ao preço de uma opção e montando uma carteira que cancela o termo em \( dW \), o acaso desaparece e sobra uma equação determinística, que é a equação de Black-Scholes. E essa equação, por sua vez, é a equação do calor disfarçada.

Escrevi essa segunda passagem inteira em outra página, com as três substituições e as contas todas. Por que Black-Scholes é a equação do calor disfarçada.

Para fixar

Feche a aba e responda no papel.

  1. Por que \( (\Delta W)^{2} \) não pode ser desprezado, se \( (\Delta x)^{2} \) pode?
  2. Por que a soma dos quadrados dos incrementos deixa de ser aleatória?
  3. Aplique o lema a \( f(S) = S^{2} \) num movimento browniano geométrico. Qual é o arrasto do resultado?
  4. Um ativo tem \( \mu = 12\% \) e \( \sigma = 40\% \). Qual o crescimento típico em um ano?

Respostas da terceira e da quarta. Para \( f = S^{2} \) sai \( d(S^{2}) = (2\mu + \sigma^{2})S^{2}dt + 2\sigma S^{2}dW \), ou seja, a convexidade aumenta o arrasto, ao contrário do logaritmo. Na quarta, \( 12\% - \tfrac{1}{2}(40\%)^{2} = 4\% \).